Apólogo da Mortalidade

1- Em eras anteriores, antes de se firmarem os primeiros povos, antes da Árvore da Vida eclodir da semente primeva, antes da criação do medo e da ilusão, antes mesmo do tangível proceder o caos, somente a Vida e a Morte existiam.
2- A Vida se deleitava em seu espaço, tinha ciência de sua essência, de sua existência, porém não era plena e se sentia incompleta.
3- Onde míngua a luz, a Morte se deleitava, e, com igual ciência de sua existência, não era plena e se sentia incompleta.
4- A Vida avistou a Morte no horizonte, e com agregador brilho nos olhos, sorriu-lhe.
5- A Morte avistou o sorriso da Vida e, de igual nuance, isso muito lhe agradou, e de igual modo tentou corresponder ao flerte, mas em vão, pois a Morte não sabia sorrir.
6- Pensando não ter agradado a Morte, a Vida chorou.
7- A Morte, contudo, não desistiu: caminhou onerosa no horizonte em direção à Vida, mas quando mais caminhava para perto da Vida, igualmente distante continuava dela. A Vida e a Morte jamais poderiam se tocar.
8- Inconformada com sua condição, a Morte pegou sua gadanha e atirou-a contra o trajeto. O caminho que antes era plano, ficou, então, repleto de obstáculos.
9- Vendo que tudo era ineficaz para estar junto à Vida, a Morte chorou.
10- Por nove lunações Vida e Morte mantiveram os olhos direcionados um para o outro, e a cada vez mais crescia a angústia dentro deles, pois não podiam se tocar.
11- A Vida então concebeu uma ideia: de sua vontade fez surgir uma lebre para regalá-la à Morte. A lebre percorreu o caminho até que a Morte pudesse pegá-la.
12- A Morte se regozijou com o presente, acolhendo-o como um ilibado e caloroso abraço de sua amada Vida.
13- Ao ver que a Morte acolheu o presente, a Vida criou vários seres viventes, incluindo os humanos, todos para regalar à Morte.
14- Todos esses presentes passavam pelo tortuoso caminho moldado pelas angústias passadas da Vida e da Morte, até, por fim, ser acolhido pela Morte como seu maior desejo.
15- Assim, eternamente, a Vida presenteia a Morte com todas as criaturas viventes.
16- E, por consequência, a Morte acolhe as criaturas como presentes, para que seu relacionamento com a Vida perdure pela eternidade.
17- Que não se apague a memória de que somos todos presentes, somos presentes da Vida para a Morte, e em direção à esta caminhamos. Portanto, de bom grado temos que nos curvar para o declínio assim como de bom grado o vento soprou em nossa alma.
18- Aos que temem a Morte, advertidos sejam. Lembrem-se da mortalidade.