Tábua Escarlate – Capítulo III

1- Se aos homens cabe a razão, o que será do amanhã?
2- Que racionalidade encoraja a disputa em detrimento da partilha?
3- O fim virá àquele que conquista. O fim virá àquele que partilha. O que será legado?
4- A vida é breve. O conhecimento é duradouro.
5- Nada ficará dos homens senão seu legado, e se este legado é maldito, não restará esperança aos seus descendentes e tudo o que viveram os homens será em vão.
6- O ser não existe. O ser coexiste.
7- Entretanto, a Dama da Consumação elevava sua importância. Nada ela conhecia e isso a convinha.
8- Ela não era culpada por tal erro. Jamais se culpa o humilde pela imposição do tirano. À Dama foi negada a verdade. Há de se lastimar.
9- Durante dias de pranto, ela muito meditou. Se negou a ler as futilidades da vida e passou a escrever, escrever ponderando sobre a Morte.
10- De sua carne ela sentia os ossos. E os ossos, em sua carne, estalavam.
11- Sua mente saia de sua existência. Sua mente avança no horizonte, tão amplo, nas zonas mais torvas e negras do conhecimento superior.
12- Não tardava a voltar em seu corpo físico, seu corpo de carne sangrenta. Tão limitado quanto a existência terrena na qual se mantinha presa. Tão presa quanto onde repousa, entre as paredes que lha cingem.
13- Ela queria entender mais do desconhecido, contudo seus tutores trépidos lha negavam.
14- Sair daquela torre era tentador, contudo era uma ideia na qual seus tutores reprovavam.
15- A Dama, então, se pôs perante a balaustrada do parapeito, e assim, se jogou aos braços da Morte, mas a Morte lha poupou a vida.
16- À ela cabe um destino maior e uma morte mais honrada, é o que lha disse a Morte no cerne de sua mente.
17- Assim, a Dama fugiu às grutas, onde encontrou códices, círios e crânios. Lá ela obtinha conhecimento verdadeiro. Lá ela possuía a sabedoria dos ritos santos. Lá a Morte com ela se unia.
18- Ela, então, se aprofundava no conhecimento e com frequência ela meditava. É o que exige ser adepto da Morte, mas a Dama era mais do que uma adepta: era sua amada.
19- À sua sombra, a Morte acolhe por igual. Não há classes nem títulos que a convém.
20- Quão nobre é conhecer nosso íntimo. Quão nobre é ampliar nossa mente. Quão nobre é aceitar seu destino.
21- E estes foram os versos do conhecimento.
22- Lembra-te de que morrerás.

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