Códice do Cárcere

1- Lembremos da Morte. Que sua treva oculte nosso ser e que todos se unam ao cântico sepulcral de seu mistério.
2- Testemunho minha lástima, mas também testemunho minha resistência. Acima de tudo, testemunho minha morte.
3- Desde minha iniciação, sou policiada pelas tropas profanas e minhas irmãs podem atestar. Por anos resistimos, por anos nos escondemos, mas chegou o epílogo.
4- Fomos duramente perseguidas. As que não conseguiram refúgio no leste foram aprisionadas e severamente torturadas, mas como servas leais nada contamos.
5- Nosso irmão Libra foi alertado e outorgado a enviar epístolas de rogo às lojas próximas e às guildas aliadas, mas enquanto perdura nossa sorte, nos veremos no véu de além.
6- Após meia lunação, fui convocada ao julgamento. No primeiro dia fui açoitada no torso. Os inquisidores e algozes refletiam com repulsa no rosto, porém os severos exercícios de mortificação resguardavam meu couro da agonia e da atratividade de entregar meus iguais.
7- Nalgum canto da sala havia a sagrada imagem do mártir de meus torturadores, mal sabiam eles que seu mártir também foi um adepto da Morte, tal como eu, e, de igual modo, foi torturado injustamente até perecer.
8- No segundo dia fui açoitada em dobro no torso e nos membros. Os espinhos agarravam nas fendas de entre minhas costelas. Meu couro, mesmo mortificado, começava a sentir não apenas o açoite, mas também a ira do algoz e o temor dos inquisidores. Meus olhos cerrados apenas viam a seda do Santo Ceifeiro, escura como o abismo, acolhedora como a noite, romântica como o eclipse.
9- Antes do dia começar, recebemos resinas para as feridas. Não impedi minhas irmãs menores de desfrutarem, mas neguei, a mim, tal requinte. Por horas me pus a meditar e aceitar minhas feridas, assim me preparando para o que há de vir.
10- A tempestade não acaba se tudo permanece como está.
11- No terceiro dia me amarraram nua de pés para o alto. Tive meu corpo queimado e violado.
12- Com um sorriso no rosto, disse eu aos algozes: Vós fazeis isso para que eu me sinta importunada. Perdeis tempo, estou tão plácida como sempre, pois não há tortura maior do que viver nas angústias da carne, e quanto ao abuso das minhas fissuras, não me importo em fazê-lo de ledice, já que tanto exigis. Minha boca continuará a prezar o silêncio e minha alma jamais pesará.
13- Após minha declaração, fez-se um bom tempo de intervalo. Os inquisidores discutiram entre si, até que, após a sentença, os algozes me açoitaram por um tempo.
14- Na cela, a Morte aparecia em meus sonhos. Sua lâmina cortava minha carne e libertava meu espírito.
15- Saibamos, pois, que nossa carne é como o chumbo, pesado de tanta mundanidade, de tanta futilidade. Nosso espírito é como o ouro, reluzente e valioso. Após o óbito, o chumbo é pesado demais para atravessar o véu entre os mundos. Que ainda durante a vida nos libertemos do chumbo, valorizemos, pois, o brilho do ouro.
16- No quarto dia fui açoitada e cortaram-me os seios. O ruído de minha carne sendo rasgada foi ecoado por todos os corredores e claustros, mas de minha boca nenhum sonido de dor saia. Em minha barriga escorria sangue e secreção.
17- Na cela minhas irmãs trataram minhas feridas e fecharam meu tórax. Não tardaria para o mesmo malefício cair sobre elas também.
18- Não tememos o fim, mas decerto há maneiras mais mansas ou mais honradas de se deitar sobre sua túnica escura. Por graças da Lua que tudo precede, nossa sina foi alternada, as epístolas foram atendidas através de um atestado assinado por cinco veneráveis da Guilda dos Alvanéis. O documento prezava libertar-nos por inocência, contudo, por barganha, uma de nós haveria de ficar, e eu me ofereci de bom grado.
19- Os vigilantes escoltaram a saída delas, e, para mostrar destemor e indignação, a irmã Estrela lambeu a lâmina da alabarda de um verdugo, bifurcando sua língua e ruborizando a lâmina de sangue. Depois do ocorrido, a alabarda quebrava toda vez que era usada para ameaçar pessoas inocentes.
20- Nada me seria mais gratificante do que ver minhas irmãs libertas, e não há suplício que me tire esse conforto. As cordas podem me açoitar, as lâminas podem me amputar, mas todo açoite e todo corte se chocarão como lírios em meu couro já mortificado.
21- Assim, no quinto dia começaram a decepar-me alguns dedos, assim como o sangue que corria. Tudo o que eu fazia era sorrir, sem nunca guinchar e tampouco chorar.
22- O sangue que corria só me alegrava, pois quanto mais rubro estava o assoalho, mas próximo a Morte estava para me estender seus braços. O cantar da procissão santa se aproximava, eu a ouvia, tocavam sinos, entoavam louvores mórbidos e bradavam as mais obscuras litanias.
23- Ó Morte, leve-me deste mundo de sofrimento, deixe-me deitar em teu regaço como uma ínscia criança e perder-se nas brumas do esquecimento.
24- Veremos, pois, quanto tempo este ouro se libertará desse denso chumbo e formará parte da procissão. Que a Morte não desanime os que lutam pelas boas causas, pois até lá muito será revelado.
25- Que esta declaração testemunhe meu último alento, para que jamais seja esquecido o valor do martírio e a maldade dos tiranos, e, sob os cuidados das irmãs Estrela e da irmã Verte-água, que estas palavras percorram por todas as lojas da irmandade.
26- Que a Morte resguarde a todos dos suplícios deste mundo.