Tábua Escarlate – Capítulo II

1- Ó Morte. De toda a honra que aos homens convém, nem no óbito há respeito em teu domínio.
2- Na ilusão a Dama vivia, na ilusão sua verdade se fundava. Os objetos, as artes, as paredes de sua cela, tudo isso era o mundo, o mundo que ela conhecia, o mundo de uma gostosa ilusão.
3- Passaram dias, anos e décadas. Seus quadris se alargavam, seus seios se avolumavam e sua mente questionava sempre que podia.
4- Há de se questionar. Há de se questionar. Uma mente fraca vive na ilusão. Uma mente fraca vê ordem enquanto há desigualdade, vê liberdade enquanto há tirania e vê riqueza enquanto há óbito.
5- O prelúdio, contudo, aconteceu por um ferimento aberto quando fiava uma túnica para si. Nunca antes ela viu a cor do sangue.
6- Assim, a Dama se desesperou, teve medo e caiu em pranto sem saber o que pensar.
7- Motivada pelo instinto, ela lambeu a própria fenda em sua carne, provando o sangue com gosto férreo, o que muito lha agradou.
8- Motivada pela curiosidade, ela abriu mais sua ferida, descolando o que sua pele havia regenerado, para ver o que continha.
9- E a cor do sangue lha fazia pensar. E a cor do sangue lha fazia questionar. Ela passou a observar tudo a sua volta.
10- Na janela avistou os roçados e rebanhos. Tudo havia mudado, nada era como uma vez já fora, e tudo voltará a mudar.
11- Na janela avistou a floresta. Havia menos árvores. A floresta também havia mudado.
12- Na janela avistou, mais distante, os montes. Havia mais casas. Os montes também haviam mudado.
13- Percebendo ter despertado da ilusão depois de anos, a Dama pôs-se a pensar. Tirou suas vestes defronte ao espelho e percebeu que ela mesmo havia mudado.
14- Até seus tutores, já anciões, não eram os mesmos, e que a cada vez mais ficavam fracos e defeituosos até desaparecerem de vista.
15- Assim ela conheceu a Morte. Assim a Morte ela temeu. Ficou apavorada com o mundo e com seu próprio fado.
16- Quão negligente é temer a Morte. Quão negligente é perder a própria vida com o pavor e a ignorância.
17- E esses foram os versos do temor.
18- Lembra-te de que morrerás.

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