Códice da Árvore – Capítulo II

1- Incansáveis louvores dedico às forças que me sustentam.
2- No meu interior elas adentram e apontam para sete faróis, luzes na escuridão.
3- São sete templos, onde assentam as luzes a guiar os solitários peregrinos perdidos nas trevas.
4- Com um eu penso, com dois eu sinto, com três eu me manifesto, com sete eu reconcilio a Vida com a Morte.
5- No primeiro templo me aproximo. Sua escadaria é do mais branco mármore e sua entrada é velada por inúmeros véus negros.
6- Suas paredes são decoradas com pérolas, suas diaconisas carregam ânforas prateadas cheias de água puríssima e o incenso de seu turíbulo é de sândalo.
7- Um longo pano azul claro reveste seu altar e nele é visto uma imagem da Divindade ainda criança sendo embalada por sua mãe.
8- A dama intocada abraça o fruto de seu ventre. Ela o toma em seu regaço, o nutre e o vela de todos.
9- Véu da verdade, gruta do tesouro, templo da mais valorosa relíquia. Água mais pura e pacífica a mostrar os diamantes que nela se recolhem.
10- Que Aquele que provê tenha piedade de mim e comigo esteja pela eternidade.
11- Outro templo eu avisto e meus passos caminham até seu pórtico sem nada temer.
12- No segundo templo me aproximo. Duas entradas se encontram, uma negra e outra rubra, ambas a levar para o mesmo santo lugar.
13- O chão possui ladrilhos de duas cores intercalados, suas paredes são alaranjadas, seu teto relembra o céu profundo e o incenso de seu turíbulo é de lavanda.
14- Seu altar é revestido com um pano verde e nele a Divindade se prosta de pé, manifestando o gesto de seu poder.
15- O enviado persiste em sua jornada passando por entre cidades e aldeias. Aos doentes ele cura, aos cegos ele ilumina e aos incrédulos ele admoesta, pois só os mais amados contemplarão sua transfiguração.
16- Que Aquele que provê me traga o conhecimento que fomente minha liberdade.
17- Outro templo lá está, sem o qual não poderia passar sem vê-lo.
18- No terceiro templo me aproximo. Sua entrada é grande e ornada de espigas e seis colunas adornam seu portal.
19- Suas paredes esmeraldadas abrem-se em fileiras de janelas duplas, pétalas vívidas mostram o caminho até o a nave e o incenso de seu turíbulo é de rosa.
20- Seu altar é revestido com um pano rosa e nele a Divindade se apresenta sentado, coroado com uma guirlanda e com uma cornucópia em suas mãos.
21- Abundância e felicidade cingem o noivo magestoso. Do trigo da terra e dos peixes da água ele farta seus convidados, multiplicando as provisões, pois sua prometida a ele há de se unir no ato nupcial.
22- Que o Aquele que provê me mostre a beleza oculta que me inspira à ascensão.
23- A majestade do próximo templo ofusca a natureza que o enquadra. Janelas cintilam sua luz interior. Farol na escuridão, baluarte que a todos os templos congrega.
24- Sua escadaria é a mais longa e a mais alta, e, de todos os templos, possui as escadas mais miseráveis, de paupérrimo aspecto.
25- O caminho penoso finaliza com seu pórtico a cingir uma humilde e fina porta. A verdade, escondida outrora pelos véus, agora se encontra perante quem ousa conhecer. A vida é prometida a quem trilha o caminho da verdade, indicada pelo pórtico da vitória, pois enquanto o véu cobre, o pórtico desvenda.
26- Doze colunas douradas revestem o interior (do templo), seis de cada lado, e de suas alvíssimas paredes brotam trinta e três candelabros dourados. De seu turíbulo sai um puro odor de olíbano.
26- Seu altar, ofuscante e ornado de diamantes, é revestido com um pano branco, e nele a Divindade se apresenta estendida e agoniando em seu suplício, entregue de bom grado por amor aos mortais e para a salvação de todos.
27- Quão belo é o pelicano, que a seus filhotes alimenta. Quão gracioso é o pelicano, que vaga na seca sem encontrar o sustento para o seu rebento. Quão magnífico é o pelicano, que abre suas entranhas a oferecer seu sangue para o bem do ninho.
28- O altruísmo é a mais divina virtude, a virtude da morte. O Inefável benfaz aos que ousam. A entrega voluntária dá a paz a nossa alma e bem aos nossos amados.
29- Que Aquele que provê me torne tão magnânimo como sua divina essência e tão humilde a fim de que o orgulho não ofusque minha renúncia.
30- Um semblante de triunfo ronda o templo ao longe avistado. Até ele caminho com ardor incessante.
31- Flâmulas ornam sua fachada. Flâmulas dos heróis de outrora, cujo exemplo e honradez deixam de legado aos seus herdeiros.
32- Suas paredes, vermelhas, como revestidas de sangue. Ao longe, cravada sob a abóbada central, uma espada de ferro toma como pilar. O incenso de seu turíbulo é de verbasco
33- Seu altar é revestido de um pano anil, e nele a Divindade, em sua montura, se apresenta vitoriosa frente aos obstáculos e às rosas no chão.
34- Dos estreitos desfiladeiros, liderando a coluna, o general audacioso da impávida infantaria guia seus leais para a batalha final.
35- O líder audaz traça o destino de seus companheiros e assegura a liberdade de sua nação.
36- Com sua espada ele impõe a diligência, com os ramos em seu caminho ele define sua vitória, com sua coragem ele direciona seu poder.
37- Como um hábil guerreiro saio do templo agraciado de poder. Avisto, pois, dentre os rochedos, o Templo da Justiça.
38- Seu portal é colossal e ladeado por duas colunas, uma alva como o dia e outra negra como a noite, cujo firmamento estabelece pela sua força.
39- De vivo azul é revestido suas paredes. Um trono se assenta atrás do altar com um cetro revestido de estanho a tomar o seu lugar, e o incenso de seu turíbulo é de anis.
40- Seu altar é revestido de um pano castanho, e nele a Divindade assume a postura de um rei, com o sinal do julgamento em sua destra e o pergaminho da lei em sua sinistra.
41- Ergue-se de seu suntuoso trono o soberano, suntuoso a erguer o radiante cetro da harmonia.
42- Com o fogo que porta, fogo no qual mortais tanto se destroem na ganância e na inveja, o verdadeiro rei faz a justiça compilada pelo Céu e pela Terra, protegido pela mais alta clemência.
43- Nem seu filho nem sequer seu vassalo caberá na frente do puro equilíbrio em que se fundamenta sua glória.
44- Como astuto juiz saio do templo agraciado de glória. Avisto, então, o último templo.
45- Os seis anteriores não eram, senão, preparação para o deslumbramento que há de vir.
46- Entre as trilhas de espinhos e paisagens de ruínas eu caminho para o templo cuja entropia se alastra pelo vazio.
47- As árvores secas se confundem com rochas e as rochas se confundem com árvores secas.
48- A entrada do sétimo templo se assemelha ao buraco de uma gruta. Nele meus pavores se enervam.
49- Seu interior é negro como piche, escuro como a noite, mas uma luminária, deixada pelo último anacoreta, veio me valer.
50- Olho para baixo, para cima e para os lados, pois a ilusão se confunde com a verdade. Mas a verdade se oculta.
51- No fundo do templo se encontra o altar, revestido por um pano violeta. Nele, a Divindade se encontra renascida como a fênix. Ela desce até o submundo levar a sua luz e emerge para o seu reino com poder e glória.
52- Atrás do altar, um menir aponta para um túmulo cingido de candeias, onde diz: Aqui deita aquele que foi desprezado e hoje é o primeiro entre todos, aquele que foi sentenciado e hoje é o Eleito, aquele que outrora era mortal e hoje é Divindade.
53- Os mistérios aqui revelados não caberiam sem as trevas que os recobre.
54- Que Aquele que provê me mostre meu destino e me inspire a ser eu mesmo o senhor do meu caminho.
55- Atrás de mim, só as memórias de minhas boas obras restam. A minha frente, então, me espera o vórtice do desconhecido, o negrume onde só se ouve a fonte primeva a jorrar deslumbramentos e desilusões.
56- Verdades imutáveis são apresentadas a quem não teme. Prazeres inesgotáveis são concedidos a quem se mortifica. Assim como o ciclo sempre volta ao início, a ascensão clama por um fim. TF.SN.QN.VU

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